Distribuir dividendos ou reter caixa?

O excedente de caixa acumulado pelas empresas é uma discussão frequente em avaliações de empresas, reestruturações societárias e operações de M&A, bem como a opção entre distribuir dividendos ou acumular caixa e a consequente geração ou destruição de valor que essas ações podem acarretar. Aproveitamos o texto publicado pelo analista André Rocha, no blog O Estrategista para abordar esse assunto.

O objetivo último do acionista é ter sua participação em uma empresa retribuída com o recebimento de parte dos resultados. A legislação societária trata dessa questão, obrigando a companhia a definir um percentual mínimo a ser distribuído aos acionistas. Mas, apesar de algumas regras, o pagamento aos acionistas acaba sendo um ato discricionário dos administradores.

Como afirma Damodaran, o caixa pode pertencer aos acionistas, mas fica a critério dos administradores retorná-lo aos acionistas sob a forma de dividendos ou mantê-lo na empresa. De acordo com Keynes, podemos admitir três motivos para que se mantenha caixa nas empresas: (i) transações, (ii) precaução contra imprevistos e (iii) especulação.

A literatura de finanças é controversa. Algumas teorias defendem que a política de dividendos afeta positivamente a cotação das ações. Outras dizem ser ela indiferente para o desempenho do papel.

Fiquemos do lado das teorias que veem os dividendos como importantes para o desempenho da ação. Mesmo assim, o destino da geração de caixa deve ser bem balanceado entre investimentos produtivos e dividendos. Se a empresa pender para o segundo em detrimento de gastos que podem fomentar seu crescimento, as ações sofrerão mais à frente. Por outro lado, investimentos ineficientes destroem valor. Nesse caso, o dinheiro nas mãos dos acionistas evitaria o estrago.

Dada a instabilidade de nossa economia, é comum vermos companhias com caixa muito acima do necessário para cobrir suas necessidades de capital de giro, investimentos e amortização do endividamento.

Em meados da década passada, uma empresa do setor de telecomunicações chamava a atenção. Seu caixa era muito superior às suas necessidades. Alguns acionistas não se preocupavam, dizendo que o caixa da empresa era também deles, acionistas. Outros não eram tão benevolentes, acreditando que o dinheiro estaria mais “seguro” em suas mãos, receosos da possibilidade de práticas nebulosas dos administradores. Segundo minha avaliação, o dinheiro não era distribuído porque como o controle era detido com apenas 17% das ações, a maior parte dos recursos distribuídos iria para os minoritários. Isso combinado com a possibilidade de venda da companhia, sempre ventilada, tornava interessante manter caixa a fim de elevar o valor da companhia. A retenção de caixa era criticada pela maior parte do mercado, impedindo que as ações atingissem seu valor justo.

Algumas empresas sob a desculpa da prudência retém caixa além do necessário para suas atividades, diminuindo o valor da companhia. Na falta de um uso melhor, a distribuição de recursos ociosos seja por meio de dividendos ou redução de capital deve ser mandatória. Ninguém melhor do que o próprio acionista para saber o que fazer com o dinheiro. As empresas abertas deveriam ter isso em mente, pois a geração de valor pode estar dormindo placidamente no cofre da companhia.



As análises e opiniões expressas no texto são baseadas em julgamentos do autor, portanto não configuram recomendação de investimento. Nem o autor do texto, nem a Actual Ventures, se responsabilizam e nem pode ser responsabilizados por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Toda e qualquer decisão de investimento baseada nas opiniões aqui expostas é de exclusiva responsabilidade do investidor.

Fonte:
- Blog O Estratagista, por André Rocha, 28/03/2017 – conteúdo editado
- A. Damodaran, Avaliação de Empresas 2ª ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007  

http://www.estrategista.net/o-caixa-e-da-companhia-ou-do-acionista/#more-2365